Saturday, October 20, 2018

Marx, Capital and the Madness of Economic ReasonMarx, Capital and the Madness of Economic Reason by David Harvey
My rating: 4 of 5 stars

PRÓLOGO
Crises, como as que Marx vivenciou em 1848 e 1857, decorriam de choques externos, como guerras, escassez natural e más colheitas. Hoje os comentários de Marx sobre as leis que governam o capital e suas contradições internas, suas irracionalidades subjacentes, revelam-se mais penetrantes do que as teorias macroeconômicas tradicionais que não deram conta de explicar a Crise de 2008 e suas consequências prolongadas.
A VISUALIZAÇÃO DO CAPITAL COMO VALOR EM MOVIMENTO
Tal como David Ricardo, Marx entende como valor o tempo de trabalho socialmente necessário . Se o capital é valor em movimento, então como, onde e por que ele se move e assume as diferentes formas? Os capitalistas comerciantes participam juntamente a financistas que formam o núcleo de uma classe de capitalistas monetários que desempenham um papel crítico na facilitação da conversão do dinheiro de volta em capital financeiro garantindo o círculo dos processos de valorização (dinheiro gerando dinheiro). Cada um desses agentes reivindica uma parcela da mais-valia na forma de lucro, juros ou aluguéis, enquanto a classe trabalhadora fica com uma proporção decrescente da produção sob forma de salário que não são reajustados.
O Estado exerce considerável influência por meio da demanda efetiva que exige na busca de equipamentos militares, todo tipo de meios de vigilância, administração e administração burocrática. Na esteira de crises massivas (como a da Grande Depressão dos anos 1930 ou QE nos EUA e Pedaladas no Brasil), o clamor por uma intervenção estatal mais efetiva tende a aumentar. Sob condições de ameaça geopolítica (seja real ou imaginária), a demanda por complexo militar-industrial não é desprezível para inovação e para a circulação do capital (a Guerra do Iraque gerou demanda para muitas das inovações geradas a partir da Bolha das Pontocom de 2001).
Mercados de crédito fornecidos pelo sistema bancário carregam um elemento contraditório que é a criação do endividamento de dentro do sistema financeiro se torna um motor persistente de acumulação futura. Um calote de dívidas desencadeia efeito dominó que se alastra no sistema de fluxo de capitais gerando depressão de preços de ativos dados como garantia a empréstimos.
CAPITAL, O LIVRO
Se por um lado, o materialismo físico, tende a não reconhecer coisas do espírito como processos que não podem ser fisicamente observados; o materialismo histórico, por outro lado, reconhece a importância dos fenômeno imaterial/espiritual. Marx refere-se ao dinheiro como uma das metamorfoses na forma de "borboleta" do capital (ele voa com facilidade e vai para onde quiser) enquanto a mercadoria estaria ainda na fase anterior ainda como uma “lagarta”. A principal intenção de Marx em Capital é desconstruir a visão utópica do capitalismo de livre mercado. De acordo com Marx, a tecnologia distorce o trabalhador em um fragmento de homem, ele o degrada ao nível de um apêndice de uma máquina geradora. O acúmulo de riqueza em um pólo é, ao mesmo tempo, o acúmulo de miséria, o tormento do trabalho, a escravidão, a ignorância, a brutalização e a degradação moral no pólo oposto.
No ápice do sistema financeiro e monetário do mundo estão os bancos centrais, com poderes aparentemente infinitos de criação de moeda, independentemente do estado de produção de valor (a produção real da economia). Uma classe banqueira (capitalistas monetários) busca ganhos monetários ao investir o capital monetário à sua disposição. Esta classe dita o ritmo da preferência pela liquidez na economia e promove a criação de capital fictício (como a SECURITIZAÇÃO ESPECULATIVA – CRI da LOCALIZA) criado dentro do sistema bancário que é emprestado e rende juros. Além disso, a massificação do crédito serve para promover demanda para absorver a crescente quantidade produzida pelo sistema econômico que assimila técnicas cada vez mais produtivas. Assim, o crédito ao consumidor (muitas vezes predatório Marizeth X Banco BMG) é essencial para a fantasia de "um imaginário" consumo ilimitado.
ANTI-VALOR: A TEORIA DA DESVALORIZAÇÃO
'Nada pode ser um valor sem ser um objeto de utilidade. Se a coisa é inútil, então é o trabalho contido nela a ameaça de desvalorização, de perda de valor, sempre paira sobre o trabalho enquanto circula (O Uber tornou o trabalho do taxista inútil, sem valor; a super oferta de aço desempregou engenheiros como o Ricardo amigo do Pavaozim). Crises ocorrerão se os estoques se acumularem, se o dinheiro ficar ocioso por mais tempo do que o estritamente necessário, se mais estoques forem mantidos por um período maior durante a produção e assim por diante. Uma "crise ocorre não apenas porque uma mercadoria é invendável, mas porque não é vendável dentro de um determinado período de tempo".
Um acúmulo de dívidas (reivindicações/direitos sobre a produção de valor futuro) pode superar a capacidade de produzir e realizar valores excedentes no futuro (Como no Subprime e no Mercado de Casas dos EUA). O anti-valor sinaliza o potencial de ruptura na continuidade da circulação do capital. Ele prefigura como as tendências de crise do capital podem assumir diferentes formas e se movimentar de um momento (produção) para outro (realização). Anti-valor é mensurado pelo estoque da dívida do sistema de crédito. O capital produz um acúmulo de dívidas que precisam ser resgatadas. O futuro da produção de valor é comprometido, o papel imediato das injeções de crédito (pedaladas ou QE) é ressuscitar o capital "morto" para colocá-lo de volta em movimento.
Centros Financeiros como City de Londres, Wall Street, Frankfurt, são centros de formação de anti-valor. O conceito de anti-valor alcança seu apogeu nas desvalorizações massivas que ocorrem nos momentos de grandes crises (Crise de 2008 tudo ficou barato e os capitais abutres fizeram a festa). A perda acumulada (desvalorização) dos valores dos ativos nos Estados Unidos na crise de 2007-2008 foi, por exemplo, algo da ordem de US $ 15 trilhões. Mas essa crescente abundância gera o que Keynes definiu como "armadilha da liquidez". O anti-valor prevalece sobre o valor, porque o valor pode permanecer apenas através do movimento contínuo.
PREÇOS SEM VALORES
Quando dinheiro circula como capital portador de juros, ele funciona como o anti-valor que deve ser e supostamente será resgatado pelo valor futuro e pela produção de mais-valia.
Quando o Federal Reserve e o Banco Central Europeu se envolvem em flexibilização quantitativa (QE), criam dinheiro na ausência de valor. O gap entre o aumento da produção física de mercadorias e sua precificação (estoque monetário) amplia-se catastroficamente. O resultado não é apenas a estagnação secular na produção de valor, mas a criação de um capitalismo Ponzi (pirâmide financeira), que é o caminho perigoso da expansão monetária sem fim que temos vindo a tomar recentemente.
A QUESTÃO DA TECNOLOGIA
A China antiga tinha notáveis técnicas e organizacionais, nenhuma das quais foi amplamente adotada ou durou. Somente sob o capitalismo encontramos uma força sistemática e poderosa de dinamismo tecnológico e organizacional. Essa força, Marx acredita, está concentrada no momento da valorização. O objetivo dos industrialistas não era elevar o padrão de vida do trabalho (embora eles frequentemente afirmassem que era para obter o apoio dos trabalhadores), mas reduzir os salários e aumentar sua mais-valia relativa (lucros apropriados via apropriação pelos capitalistas do aumento da produtividade trazidos pela inovação tecnológica e organizacional). O aumento da mais-valia relativa às vezes anda de mãos dadas com o aumento do padrão físico de vida do trabalho (os preços baixos do Walmart sobre as importações estrangeiras permitem a redução do valor da força de trabalho e o aumento da taxa de lucro para todos os capitalistas nos Estados Unidos).
Os poderes sombrios do anti-valor emergem das sombras para desafiar os controles trabalhistas (Exemplo: Reforma Trabalhista gerou alta da Bolsa de Valores; doutrina de choque/austeridade). A desqualificação e a homogeneização dos processos de trabalho eliminam os poderes de monopólio que derivam das habilidades laborais não replicáveis. Se o trabalho vivo é a fonte de valor e lucro, substituí-lo por trabalho morto ou trabalho robótico não faz sentido nem politicamente e nem economicamente.(TRABALHO MORTO = Robô apenas trabalha e não consome, hoje em dia, pra absorver a crescente oferta é mais importante consumir que trabalhar, o trabalho hoje em dia é mais crítico para gerar renda e consumo do que para gerar produção e aumentar oferta).
O ESPAÇO E O TEMPO DO VALOR
Com a ascensão do capitalismo industrial, “a necessidade de um mercado em constante expansão para seus produtos persegue a burguesia sobre toda a superfície do globo, a burguesia deve portanto se aninhar em todos os lugares, se estabelecer em todos os lugares, estabelecer conexões.
A demanda efetiva é impulsionada pelo consumismo da seguinte forma: expansão quantitativa do consumo existente; em segundo lugar: criar novas necessidades propagando as existentes em um amplo círculo; em terceiro lugar: produção de novas necessidades e descoberta e criação de novos valores de uso (pela indústria da propaganda). O desenvolvimento do mercado mundial, que faz com que o dinheiro se desenvolva para o dinheiro do mundo, enquanto as populações de todo o mundo são colocadas em competição umas com as outras. Um mercado mundial de oferta de trabalho, forjado pela hipermobilidade do capital monetário, está se tornando uma realidade cada vez mais proeminente. O tempo-espaço dos mercados financeiros contemporâneos é completamente diferente do que existia em 1848 (Tempo de Marx). O capital, sendo a força revolucionária que é patentemente, transformou as estruturas espaciais e temporais da vida cotidiana, do cálculo econômico e da administração burocrática e das transações financeiras.
Edifícios (como o prédio da Localiza) na forma de serviço da dívida (anti-valor) e receitas (geração de valor ou apropriação). Os fluxos de valor, argumentamos anteriormente, são imateriais, mas objetivos. "O tempo mecânico de produção, o tempo químico de circulação e o tempo orgânico de reprodução são, assim, enrolados e entrelaçados dentro de um outro, como círculos dentro de círculos, determinando os padrões enigmáticos do tempo histórico, que é o tempo da política". A "matéria escura" do anti-valor, que é distribuída através da circulação de capital que rende juros, exige sua libra de carne na produção de valor futuro, que deve aumentar continuamente para cobrir o custo composto dos pagamentos de juros.
A PRODUÇÃO DE REGIMES DE VALOR
Definições de desejos, necessidades de acordo com a situação natural e cultural e a dinâmica das lutas de classes significam que a equalização da taxa de lucro não será acompanhada de uma equalização da taxa de exploração entre os países.
As consequências são potencialmente de longo alcance, dada a insistência de Marx (e Ricardo) de que o trabalho é a fonte última de valor. O comércio entre um regime de valor intensivo em capital, como o da Alemanha, e regimes de valor com uso intensivo de mão-de-obra, como o Bangladesh, transferirá valor e mais-valia. A resposta está na mercantilização da força de trabalho e na exploração do trabalho vivo na produção. As fábricas de engarrafamento de dívidas de Nova York e Londres que produzem anti-valores buscam a redenção desse valor nas fábricas de Bangladesh e Shenzhen e não nas ruelas de Manhattan. A acumulação de poder de mercado pelos tubarões corporativos permite-lhes engolir os pequenos peixes através de fusões e aquisições. A unificação dos mercados acionários mundiais nos anos 80 também permitiu que esse processo se tornasse global. Nos estágios iniciais da revolução industrial em 1800s, por exemplo, o capital industrial evitou cidades capitalistas mercantis como Liverpool e Bristol e se instalou em pequenas aldeias rurais com nomes como Birmingham e Manchester para evitar o poder do trabalho organizado (sindicatos). A maior parte do valor gerado pela mão-de-obra de baixo custo de México e Polônia é capturada por corporações nos Estados Unidos ou na Alemanha, mesmo quando a mão-de-obra nos Estados Unidos e na Alemanha enfrenta uma concorrência muito maior de trabalhadores estrangeiros. Grande parte da história do capital desde 1945 foi dada à eliminação gradual das barreiras ao comércio por quedas persistentes nos custos de transporte e pela redução gradual das barreiras políticas (por exemplo, tarifas e outras formas de regulação). Os diferenciais entre os regimes de valores regionais estão desaparecendo e estamos mais próximos de um regime de valores globalmente unificado (o fato de a China ainda não ter recebido o status de economia de mercado na OMC nos diz, no entanto, que esse processo está incompleto).
Marx observa uma grande disjunção entre as commodities monetárias globais - ouro e prata. O ouro agia como o sólido e confiável eixo material sobre o qual giravam todas as outras formas fictícias e incontroláveis de dinheiro. Com o tempo, no entanto, o ouro tornou-se cada vez mais irrelevante. Desde a ruptura do padrão ouro-dollar, nos anos 1970s, os EUA imprimiram dólares para compensar o diferencial de competitividade perdido para Japão e a Alemanha Ocidental (nas décadas de 1970 e 1980) e mais recentemente tem impresso dólares para socorrer o sistema bancário e o mercado de ações com flexibilização quantitativa de 2008 a 2013. Com a consolidação do neoliberalismo no Gov. Reagan, nos 1980s, temos o regime de acumulação baseado no 'nexo estado-finanças' do capital (agora constituído pelo Federal Reserve dos EUA e pelo Tesouro dos EUA apoiado pelo FMI e depois pelos outros principais bancos centrais) responsáveis por gerenciar os saldos do dólar no comércio mundial de forma eficaz.
Mesmo na União Europeia, a Zona Euro há um regime de acumulação que propicia ao capital alemão o dominio e a extração do máximo de benefícios, enquanto Grécia, Itália, Portugal e Espanha foram sistematicamente drenados de “valor” (desemprego e precarização do trabalho).
O abandono do acordo Trans-Pacífico por Trump criou uma abertura para a China intervir e construir sua própria versão de um Regime de Acumulação no vácuo criado dos EUA. A explicação de Marx é que o mundo precisa ser estudado e entendido em termos de relações de poder flutuantes entre diferentes regimes de acumulação na economia global. Regime de Acumulação distintos geram efeitos cumulativos distintos como o enorme investimento em educação superior na China ocorrido na década recente.
A LOUCURA DA RAZÃO ECONÔMICA
Marx decidiu dedicar muito do seu esforço intelectual e vida profissional à crítica da economia política e à loucura da razão econômica. “Toda razão que eles (os economistas) colocam contra a crise é uma contradição exorcizada e, portanto, uma contradição real. O desejo de se convencer da inexistência de contradições é, ao mesmo tempo, a expressão de um desejo piedoso de que as contradições, que estão realmente presentes, não devam existir”. A loucura da razão econômica fica disfarçada por formas fetichistas nas quais o dinheiro parece ter o poder mágico de render mais dinheiro sem cessar (meu dinheiro em uma conta de poupança e o dinheiro aumenta a uma taxa composta sem que eu faça nada). Nossa compreensão do mundo é refém da insanidade de uma razão econômica burguesa que não apenas justifica, mas promove a acumulação sem limites, enquanto vende a farsa “do crescimento harmonioso e melhorias contínuas e atingíveis no bem-estar social”. O dinheiro pode acomodar a necessidade infinita de expansão do valor, simplesmente fazendo com que os bancos centrais acrescentem zeros à oferta monetária, que é o que eles fazem através da flexibilização quantitativa (quantitative easing). Isso é um infinito ruim, pois é uma espiral que facilmente foge do controle. No anos 1970s costumávamos falar em termos de milhões, então se tornava bilhões e trilhões e, em breve, teremos de quatrilhões de dólares em circulação, um número que ultrapassa qualquer entendimento real. Isso tudo é claro lastreado apenas pelo poder do estado de tributar que é usado reciprocamente para resgatar bancos em dificuldades.
Os japoneses começaram a exportar capital excedente (investimento no exterior) a partir do final dos anos 1960; a Coreia do Sul seguiu o exemplo no final dos anos 70; e Taiwan no início dos anos 80. E, mais recentemente, a China (suas iniciativas de investimento em mundo tornou-se um investidor internacional ou seja passou a ser uma “capital exportadora”). Em 2008, a China enfrentou uma contração de 30% nas exportações. Fábricas no sul da China estavam fechando. O governo chinês sempre se preocupou com um possível distúrbio social. De alguma forma, a China conseguiu absorver pelo menos 17 milhões de pessoas já em 2009.Nos últimos anos, mais da metade da produção e do uso de aço do mundo ocorreu na China. Usinas de aço de custo mais alto em outros lugares (na Inglaterra, por exemplo) estão sendo forçadas a fechar. Um monte de minério de ferro é necessário para fazer esse aço. Ela vem de lugares distantes como o Brasil e a Austrália. Os países que exportam matérias-primas para a China saíram da recessão de 2007-8 muito rapidamente: Austrália, Chile, Brasil, Zâmbia, juntamente com a Alemanha, que exportou equipamentos de alta tecnologia. Entre 2010 e 2013, os chineses consumiram quase 45% mais cimento do que os Estados Unidos consumiram em todo o século anterior. Em 2007, havia nenhum trem de alta velocidade na China. A China também está exportando tanto aço quanto possível a baixo custo. Em 2015, havia quase 12.000 milhas ligando as principais cidades. Depois de 2008, os chineses copiaram (provavelmente sem saber) o que Louis Bonaparte fez em Paris depois de 1848 e os Estados Unidos tinham feito após a Segunda Guerra Mundial . O esforço de construção em massa na China foi financiado por dívida. A dívida do país quadruplicou entre 2007 e 2015. Em 2016, a dívida formal era de 250% do PIB. A dívida tinha que ser estendida tanto para produção quanto para consumo. A dívida das famílias aumentou dramaticamente (caso contrário, quem compraria todas essas novas unidades habitacionais “as cidades fantasmas”?). O crédito fácil pressionou os preços dos imóveis para cima. Especulação em valores de habitação tornou-se abundante. No verão de 2016, os preços da habitação nacionalmente subiam 7,5% ao ano. Quando a China relaxou seus controles cambiais em 2016, um bando de compradores chineses apareceu em Nova York. Grande parte da dívida é provavelmente tóxica, coberta pela criação de ainda mais dívidas (como acontece nos esquemas Ponzi ou Pirâmide Financeira).
As forças de trabalho do mundo foram trazidas para uma relação competitiva entre si pela diminuição dos custos de transporte e comunicações enquanto o capital está construindo mais cidades para pessoas e instituições para investir, não cidades para as pessoas comuns para viver. Quão sensato é isso? Em 2013, o Brasil estava cheio de dinheiro. Em 2016, estava em profunda recessão. Desde 2014, a maior parte da América Latina tem visto um agravamento econômico cada vez maior, porque o mercado chinês não é tão vigoroso. A alienação no Brasil e nos EUA criou respectivamente coxinhas e trumpistas (quando os trabalhadores pensam mais como consumidores); que são uma massa de trabalhadores que se vêem como consumidores que perderam seus benefícios devido à migração e direitos gerais das minorias. A alienação de trabalhadores se transforma em uma presa fácil para ser lavada pelo discurso demagógico.


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Saturday, October 6, 2018

O FIADOR

“E antes que falem, Paulo Guedes, que eu não entendo de economia: tem uma passagem da Bíblia que diz que Deus não chama os capacitados. Capacita os escolhidos!”
Paulo Roberto Nunes Guedes não é um principiante nos debates econômicos nacionais. Formado em economia pela Universidade Federal de Minas Gerais, com mestrado na Fundação Getulio Vargas e doutorado na Universidade de Chicago
notabilizou nos anos 80 pelas críticas ao Plano Cruzado do presidente José Sarney

combateu o confisco
e fez ressalvas ao Plano Real
soluções afinadas com o liberalismo ortodoxo
o apelido de Beato Salu, o personagem da novela Roque Santeiro que perambulava pela cidadezinha de Sinhozinho Malta e viúva Porcina anunciando o fim do mundo
um dos fundadores do banco Pactual
presidiu o Ibmec
e ajudou a criar o Instituto Millenium
Foi sócio de gestoras de recursos e hoje é CEO da Bozano Investimentos, no Rio de Janeiro
Emprestando ao ex-capitão um figurino liberal que nunca foi o dele, Guedes deu à campanha um novo impulso e ganhou do próprio candidato o status de autoridade inconteste
No final de julho, em uma conversa em seu escritório, no Leblon, Guedes admitiu ter ficado um tanto constrangido na convenção do PSL.
No mesmo dia, o próprio Bolsonaro enviou uma mensagem em áudio: “Paulo, amanhã tem uma convenção, você viu esse negócio de dizerem que estou isolado. Você está livre para fazer o que quiser.
No palco do SulAmérica, o economista fez um discurso de poucos minutos
Bolsonaro é sincero, patriota e republicano, não faz “acordos mercenários”
representa a ordem, a preservação de vidas e propriedades
o “economista destemido”, como o chamou Magno Malta, foi aplaudido e celebrado
Ainda assim, restringiu sua presença na convenção ao mínimo possível.

O deputado havia gostado de um artigo de Guedes, “Vácuo ao centro”, publicado no Globo e no qual classificava como “irreversíveis” a sua candidatura e a de Ciro Gomes.
Bolsonaro é a ‘direita’ que quer ‘a lei e a ordem’, valores de uma classe média esmagada entre uma elite corrupta e as massas que votam em Lula buscando proteção e assistencialismo.
Guedes contou que estava ligado ao apresentador de tevê e aspirante a presidenciável Luciano Huck, a quem vinha dando ideias para um futuro governo.
Àquela altura, Bolsonaro já entrara para o rol dos fenômenos políticos. Consolidara-se em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto – ou em primeiro nos cenários sem o ex-presidente Lula –, mas se incomodava com as insistentes perguntas sobre economia.
Bolsonaro, a gente tem de reconhecer que algumas críticas são válidas. A imprensa sabe que o Fernando Henrique não entendia de economia, mas o PSDB tem profissionais preparados e não faltariam quadros para um governo tucano. Com o PT é a mesma coisa. Tem lá um monte de gente para assessorar o Lula. Você não. Você é sozinho. Não tem nem partido!
O ex-capitão ainda buscava uma legenda para se abrigar, e só viria a se filiar ao PSL em março deste ano.

um economista que não fosse nem tucano nem petista para chamar de seu
inflexão liberal do ex-capitão foi bem recebida, e os convites para o candidato e o economista falarem em eventos de bancos e gestoras de recursos se multiplicaram. Desde fevereiro, Guedes participou de mais de 15 reuniões e palestras, sem falar das incontáveis entrevistas e de algumas viagens com o candidato. Bolsonaro, por sua vez, esteve no BTG Pactual e na XP Investimentos e compareceu a jantares, almoços e cafés com grandes empresários, como Abilio Diniz, ex-dono do Pão de Açúcar e acionista da Brasil Foods, David Feffer, do grupo Suzano, e Rubens Ometto, dono da Cosan.
A piada, entretanto, acabou sendo incorporada pelo próprio presidenciável, que passou a se referir a Guedes como seu “Posto Ipiranga”. Com sucesso, como constatou a diretora do Ibope, Márcia Cavallari, nas pesquisas do instituto. “O que o eleitor vê é que o Bolsonaro não enrola. Ele admite que não sabe de economia e diz que vai buscar quem sabe. Mesmo sem conhecer Paulo Guedes, o eleitor pensa: ‘Bolsonaro é humilde e não está mentindo.’”
“Muito empresário queria votar nele, mas tinha receio ou vergonha. O Paulo Guedes deu a desculpa que o pessoal precisava.”
Reconheceu que talvez não consiga vender todas as estatais, porque Bolsonaro quer manter as que ele julga “estratégicas”, mas, afora Itaipu, não apontou quais seriam. Admitiu, também, que ainda não chegou a um acordo com o presidenciável sobre alguns assuntos, como detalhes da reforma da Previdência ou o reajuste do salário mínimo, hoje atrelado a uma fórmula que combina INPC com o índice de crescimento do PIB. A regra criada na gestão Dilma vai caducar no próximo mandato.
Paulo, sua proposta é maravilhosa, mas temos um filtro pela frente, chamado Câmara e Senado. Nós não queremos apresentar uma proposta que não tenha chance de ser aprovada.
Na educação, sugeriu a distribuição de vouchers para os alunos de escolas públicas com bom desempenho estudarem na rede particular; em relação ao sistema prisional, defendeu a privatização de todas as penitenciárias.

Bolsonaro só discordou uma vez, balançando a cabeça, quando o economista disse que os militares deveriam ter devolvido o poder aos civis três anos depois do golpe de 1964.
A influência que Guedes passou a exercer sobre Bolsonaro é tal que, por vezes, os assessores recorrem ao economista para tentar persuadir o candidato de alguma coisa.
“Ô Jair, às vezes seus caras me ligam e pedem para fazer isso, para fazer aquilo…” O ex-capitão respondeu: “Paulo, só vale o que nós dois combinarmos. Não deixa ninguém te manipular.” No mês passado, quando Guedes foi tema de uma reportagem de capa da revista Veja, com a chamada “Ele pode ser presidente do Brasil”, Flávio Bolsonaro, filho de Jair e candidato ao Senado pelo Rio de Janeiro, escreveu no Instagram: “O folhetim Veja desta semana traz na capa o nosso professor Paulo Guedes. O intuito seria jogá-lo contra Bolsonaro, numa espécie de ciuminho entre eles que levasse a um desgaste interno e futuro rompimento. Não deu nem dará. Grande imprensa e adversários, morram de dor de cotovelo, nós temos o maior economista do país no nosso time, o time Brasil! E, sim, ele terá total autonomia na sua área – é porteira fechada que chama, né?! Estamos juntos, professor!”

Guedes vem atuando na conflituosa relação entre Bolsonaro e “a mídia”. “Você é visto como um bárbaro”, definiu o economista, logo no início das conversas, ao explicar para seu candidato a importância de estabelecer pontes com os donos dos maiores veículos de comunicação do Brasil.
O encontro pelo qual Guedes mais trabalhou ocorreu em agosto, quando o candidato visitou a sede da Globo, no Jardim Botânico, para uma conversa com o vice-presidente do grupo, João Roberto Marinho. Guedes e Marinho são velhos conhecidos, mas a hostilidade contra a emissora é uma das tônicas do discurso de Bolsonaro. Na convenção do PSL, um dos gritos de guerra mais ouvidos era “Globolixo”.

Bolsonaro também bate forte nas novelas da emissora, que, para ele, “arrebentam com as famílias do Brasil”. Esse parece ser um dos assuntos sobre os quais o ex-capitão convenceu o economista. Várias vezes, em nossas conversas, Guedes criticou episódios de novelas ou programas em que se discutia a diversidade sexual para adolescentes.

m meados de dezembro de 2015, dias depois de o processo de impeachment ter sido instaurado no Congresso, ele foi chamado para jantar no Palácio da Alvorada com a presidente.
No jantar, porém, não se falou do convite, mas, segundo o próprio Guedes, da condução da política econômica. “Primeiro ela deu uma informação. Falou: ‘Vou tirar o Levy e, se não achar uma solução externa, vou colocar a interna.’ Depois, ela me fez uma pergunta: ‘Por que você nunca veio, Paulo? Eu já soube que você foi convidado. O Delfim me contou que te convidou.’”
Quem ouve o guru de Bolsonaro contar sua própria trajetória tem a sensação de estar diante de um Forrest Gump da economia brasileira, o personagem que está sempre aparecendo nas franjas ou nos bastidores de episódios importantes da história.

Segundo seu relato, Dilma, durante o jantar, perguntou: “O que você faria se fosse ministro da Fazenda?” A primeira coisa, respondeu Guedes, seria adotar o plano de Michel Temer, então vice-presidente, para a economia, chamado de “Ponte para o Futuro”.
O Brasil precisa de um ajuste, o problema não é o Levy. O problema é a política.
A segunda proposta consistia em Dilma impor ao Congresso uma reforma política, em troca do seu próprio apoio ao plano Temer.
A mídia está dormindo, quando acordar já haverá alguém eleito”, disse ela. Guedes começou a pensar em quem poderia ser esse personagem, até que lhe ocorreu o nome de Luciano Huck.
Amigo e sócio de Huck na Joá Investimentos, Sayão almoçou com Guedes no início de 2016, em um restaurante da Zona Sul do Rio, e ouviu dele todo o prognóstico sobre a disputa eleitoral. O economista pediu para ser levado até Huck, e os três se encontraram dias depois na casa do apresentador, no bairro do Joá, no Rio.
Vai ter 25% de voto para um lado, 25% de voto para o outro. O establishment perdeu a decência, vai ter um vácuo no centro. Você vai virar a Meca

Huck ensaiou uma candidatura, conversou com partidos e possíveis apoiadores, fez que desistia algumas vezes – até que, em fevereiro de 2018, anunciou que, definitivamente, não entraria na corrida presidencial. Guedes já estava, então, namorando Bolsonaro.
A seção cearense do Lide, associação de empresários fundada pelo tucano João Doria, tinha organizado o evento justamente para ouvir o economista. Havia no ar um discreto clima de celebração. Em parte porque Guedes era o primeiro assessor econômico de um presidenciável a ser recebido pelo grupo, mas sobretudo porque se tratava do guru de Bolsonaro, o candidato por quem muitos ali já haviam se decidido. “Precisamos de um choque liberal”, disse Luiz Carlos Fraga, dono de uma rede de laboratórios de análises clínicas, no coquetel que precedeu a palestra.
O que faltou a todos os nossos planos, inclusive o Real, foi exatamente a dimensão fiscal.
Corte de gastos.

Só oito anos depois descobriram que tinham que fazer política monetária e fazem o Real. Só que faltou a política cambial. E, cinco anos à frente, descobriram que tinham que fazer política cambial, e abriram para o câmbio flutuante. Até aí, FHC queimou 50 bilhões de dólares para não perder a reeleição. Chegamos ao câmbio flexível não por decisão, mas porque o câmbio explodiu. Aí, flutuou o câmbio, e só depois descobriram a questão fiscal, catorze anos depois.
o alvo principal era Persio Arida – coordenador do plano de governo de Geraldo Alckmin, um dos autores do Cruzado e presidente do BNDES e do BC no governo Fernando Henrique Cardoso. Arida saiu do governo em 1995, depois de divergências com o diretor de assuntos internacionais do BC, Gustavo Franco, e em meio a acusações de ter vazado para um ex-sócio a decisão do governo de desvalorizar o câmbio – a investigação do vazamento foi extinta por falta de provas.
a chamada “turma da PUC do Rio”, hoje um reduto do pensamento econômico liberal, mas que nos anos 80 tinha inclinação mais heterodoxa.

primeira experiência de Guedes com a PUC se deu em 1979, quando ele chegou ao Brasil, aos 30 anos, depois de um doutorado em Chicago, obtido com uma tese de economia matemática sobre política fiscal e endividamento externo
imaginou que se tornaria professor em tempo integral da PUC ou da FGV.
aulas em tempo parcial nas duas universidades e no Instituto de Matemática Pura e Aplicada, o Impa.
O Brasil vivia um clima de cizânia entre os economistas.
Guedes diz que demorou a entender que, se quisesse ser bem-sucedido na academia brasileira, precisaria se enturmar em um dos grupos. “Sou um cara de politização tardia. Demorei a descobrir que não era ortodoxo suficiente para a FGV e nem heterodoxo o bastante para a PUC.”
Dias depois que tivemos esse diálogo, procurei Bacha para comentar o assunto. Ele riu. “Tenho visto ele falar essas coisas por aí, mas acho surpreendente, porque ele nunca nem sequer tentou o tempo integral. Até porque, para isso, precisaria publicar artigos, escrever textos para discussão, e ele não demonstrou disposição. Simplesmente não participa dos debates. Tenho convidado ele para vir aos eventos na Casa das Garças [centro de estudos de extração liberal administrado por Bacha], mas ele nunca vem. Talvez porque queira ser palestrante.”

O economista ainda vivia das aulas aqui e ali quando, segundo conta, recebeu no início dos anos 80 uma proposta que considerou irrecusável: lecionar na Universidade do Chile. O salário de 10 mil dólares mensais, mais passagens pagas para o Brasil uma vez por ano, era mais do que ganhava aqui, somando todos os seus empregos. A ditadura de Augusto Pinochet estava a todo vapor, e a universidade vivia sob intervenção militar. Economistas de Chicago haviam sido convidados pelo regime a implementar uma política econômica liberal, baseada nos fundamentos da economia de mercado defendidos por Milton Friedman. Chamados de Chicago boys, eles se instalaram na universidade e se revezaram em cargos no governo. O convite a Guedes partiu de um deles, Jorge Selume, então diretor da Faculdade de Economia e Negócios e diretor de Orçamento de Pinochet.
Guedes decidiu abandonar o Chile quando encontrou agentes da polícia secreta vasculhando o apartamento onde morava. Na mesma época, um terremoto abalou Santiago, o que deixou aterrorizada a sua mulher, Cristina, grávida da única filha do casal. De volta ao Rio, não se acertou com as universidades. “Percebi que havia uma mancha terrível sobre mim. Aí eu comecei a ver que a política é uma ferramenta suja nas mãos dos menos aptos.” Abrigou-se primeiro na Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior, a Funcex, entidade sem fins lucrativos. Em seguida, foi para outro centro de estudos, o Instituto Brasileiro do Mercado de Capitais (Ibmec), bancado pelo governo e por instituições financeiras. Articulado, passou a participar de debates, seminários e palestras, e logo se tornou fonte recorrente de jornalistas – já, então, criticando políticas de interferência do Estado na economia. Era sempre incluído na agenda das missões do Fundo Monetário Internacional, o fmi, no Brasil. Até que, em 1983, foi convidado pelo financista Luiz Cezar Fernandes para fundar o Pactual, que começou como uma pequena distribuidora de títulos e ações.

Na mesma época, o ministro da Fazenda, Dilson Funaro, mandou que o Banco Central cortasse a verba do Ibmec e exigiu a demissão de Guedes. Mais uma vez, Motta Veiga entrou em campo e foi falar com o ministro. Funaro manteve parte da subvenção, mas a reduziu drasticamente.
“Fiquei rico, fui muito feliz. Sou o único economista que ficou conhecido sem nunca ter passado pelo governo.” E tenta manter-se no terreno da ironia: “Hoje, sabendo das aspirações políticas e do viés ideológico que todos tinham, sinto até gratidão. Eles me expulsaram para o lugar certo.” Mas não resiste: “Eu sei que eles dizem por aí que eu sou ressentido. Isso é coisa da Elena Landau [ex-diretora de privatização do BNDES no governo FHC e ex-mulher de Persio Arida], que tomou pau na minha disciplina no mestrado. No meu curso, ela foi medíocre.”
Ela disse que a versão não confere e me mostrou seu histórico escolar, onde consta que ela foi aprovada. “Isso nunca existiu, eu passei na disciplina dele! O Paulo é que era um péssimo professor. Faltava às aulas, não corrigia os exercícios e depois queria aplicar as provas com o conteúdo dos exercícios que ele não tinha corrigido! Eu queria estudar, mas ele não ia à faculdade. Então organizei uma mobilização e o tirei da PUC.” Guedes diz que saiu da PUC porque quis.
O que o Paulo Guedes não entende é que o problema do Brasil não é ter um bom economista aconselhando o presidente, é ter um presidente com as ideias certas
Quem manda é ele, e ao economista só resta ir embora”, falou Arida. Ele contestou a sugestão de que não quisesse promover ajuste fiscal durante o governo Sarney. “Você conversa com o presidente e diz: ‘Vamos fazer um ajuste fiscal, acertado?’

Perguntei a Arida se ele achava que houve mesmo discriminação contra Guedes no meio acadêmico. Ele discordou.
diversos outros economistas vindos de Chicago nas universidades brasileiras, e todos bem-sucedidos
O Paulo não tem vocação acadêmica. Ele tem vocação empresarial e para polemista.
Vejo oportunismo nessas falas. O Bolsonaro quer disputar a eleição com o PT, e para isso é preciso desqualificar o Alckmin. Então ele fica dizendo que o Alckmin é de esquerda e que eu não sou liberal.
Eu saí porque não concordava com o câmbio fixo proposto pelo Gustavo Franco, da mesma forma que ele, Guedes. Quem me acusou foi o Delfim Netto, que nunca apresentou prova de nada. Um trio de petistas representou contra mim, o Ministério Público abriu investigação e depois arquivou por falta de provas.
Vários dos citados não gostaram de ter seus nomes ligados ao ex-capitão. A maioria preferiu não fazer comentários públicos, mas um deles decidiu falar. Marcos Lisboa procurou o jornalista e disse que não conversaria com Paulo Guedes. “Eu converso com todo mundo, desde que a pessoa não ache que a Venezuela é uma democracia ou defenda fechar museu porque lá dentro tem peladão”, afirmou Lisboa a Fucs, em tom de troça. Depois disso, o jornalista informou a Guedes que tiraria o nome de Lisboa da nota. Guedes se irritou. Daquele momento em diante, passou a mandar mensagens indignadas para o presidente do Insper por intermédio do jornalista. “O Lisboa trabalhou para o Lula, que defendeu a ditadura do Chávez e do Fidel. E trabalha para o Claudio Haddad, que colaborou diretamente no Banco Central da ditadura”, dizia uma das mensagens.
Haddad, fundador do Insper e presidente do Conselho Deliberativo dessa instituição de ensino superior, é outro personagem de quem o conselheiro de Bolsonaro não guarda boas lembranças. Haddad também é doutor pela Universidade de Chicago e foi diretor de política monetária do Banco Central no governo Figueiredo e diretor-superintendente do Banco Garantia, que no final dos anos 90 foi vendido para o Credit Suisse, depois de pesadas perdas.
Diante do impasse, recorreram a um dispositivo do acordo societário, segundo o qual, em caso de divergências, um deveria comprar a parte do outro. Guedes até tentou comprar a parte de Haddad, com a ajuda de um fundo estrangeiro. Mas acabou vendendo sua fatia por cerca de 30 milhões de reais e saiu do Ibmec – que, sob a direção de Haddad, dividiu-se em dois. As escolas do Rio de Janeiro e de Belo Horizonte continuaram com o nome Ibmec, mantiveram os cursos de pós-graduação e MBA e, em 2015, foram vendidas por 700 milhões de reais para o grupo americano DeVry. A unidade de São Paulo virou o Insper, e se transformou em uma instituição sem fins lucrativos.

Eu fundei a escola que ele dirige, mas eu pagava impostos. Eles a transformaram em escola de garotos ricos sem fins lucrativos.
Sua rotina se desenrola quase toda no Leblon, onde mora há mais de vinte anos, a 900 metros da sede da Bozano Investimentos. De manhã, caminha pela orla e depois vai para o escritório, onde fica até tarde da noite. Tem na garagem um carro importado, mas, se precisa se deslocar pela cidade, usa táxi ou Uber, pois considera mais prático. Veste sempre paletó de tweed marrom, meio desalinhado, gosta de tocar piano e de jogar futebol, viaja mais a trabalho do que a lazer e bebe pouco, com poucos amigos. Apesar de respeitado no mercado financeiro, nunca atingiu grande notoriedade fora dele.
A Bozano é a quarta gestora de Guedes desde que ele deixou o Pactual, em 1998. No ecossistema das finanças nacionais, não chega a ser das maiores. Tem 3 bilhões de reais sob gestão, distribuídos em quatro fundos. Sua missão é investir em empresas que tenham potencial de abrir capital na Bolsa, ganhando com a valorização.
Orientou a equipe do banco a emprestar dinheiro em dólar para aplicar em papéis atrelados à valorização do real. Foi uma de suas muitas “porradas”, jargão que se usa no mercado quando alguém ganha dinheiro grosso. O próprio Guedes afirma que, graças ao bom desempenho, recebia todos os anos o maior bônus individual pago pelo banco.
Ele é arredio a falar do valor que pôs no bolso, mas sabe-se que, diferentemente de outros ex-sócios no Pactual, como André Esteves ou Gilberto Sayão, não entrou para o time dos bilionários. Três desses sócios calculam que Guedes tenha acumulado, em sua passagem pelo Pactual, algo em torno de 150 milhões de dólares, em valores da época.

JGP
Jakurski, Guedes & P
Guedes combinou com os parceiros que se dedicaria principalmente a cuidar do próprio dinheiro. Ficava a maior parte do tempo mergulhado no day trade
uedes já fazia day trade no Pactual e continuou na JGP, onde isso virou para ele uma verdadeira obsessão.
perdendo muito dinheiro
o prejuízo de Guedes nessa época em 20 milhões de reais
Aquilo foi um experimento. Eu queria dominar o trade, porque o trade são seus próprios demônios. É o cara que acha que caminha sobre as águas e, de repente, se ferra.
Mas ele só parou mesmo quando acabou o dinheiro reservado para o “experimento”. Chamado a colocar mais recursos na sociedade, preferiu sair.
O episódio afastou Jakurski e Guedes e ajudou a encher mais um pouco o pote de mágoas do conselheiro de Bolsonaro.
Depois, como eu não fiz o que queriam, começaram a dizer que eu tinha pirado, que era um sócio difícil. Partiram para o assassinato de reputação.” Jakurski não quis falar com a piauí.
Filho de um vendedor de material escolar com uma servidora pública do irb, o Instituto de Resseguros do Brasil, Paulo Guedes chegou à juventude sonhando ser “o melhor economista do mundo”

PUC são os triunfos que diz ter obtido nos duelos intelectuais.
“Não existe mais lei, não existe mais ordem. O Brasil virou uma zorra. O político rouba e não acontece nada. O black bloc rouba e não acontece nada. O MST quebra sua casa com um trator, faz o que quer, e não acontece nada. Nenhum político fala isso. São covardes. Têm medo do MST.”
Num de nossos encontros, no Gávea Golf Club, ele me mostrou um vídeo em que crianças sem-terra cantam músicas que exaltam a revolução enquanto marcham. “Você acha isso normal? Usar o dinheiro do Estado para ensinar as crianças a fazer revolução?
Ao longo de oito semanas de conversas, não foram poucas as vezes que Guedes se inflamou ao criticar a esquerda, a imprensa ou os economistas de candidaturas rivais.













Friday, January 27, 2017

A crença na "cultura da periferia" é coisa de gente com miolo mole - POR REINALDO AZEVEDO

A crença na "cultura da periferia" é coisa de gente com miolo mole - POR REINALDO AZEVEDO

E não é que o pensamento social moreno resolveu inventar? Num rasgo de criatividade, deu à luz uma jabuticaba teórica que chamarei aqui de Antropologia da Maldade. O seu objeto de estudo – ou de culto – são os índios bororos que moram nos morros do Rio. Ou os nhambiquaras do Capão Redondo, em São Paulo. Ou os caetés da periferia de Vitória. Ou os tupiniquins de qualquer aglomerado pobre do Brasil. A exemplo de boa parte das idéias inúteis que circulam no país, os antropólogos da maldade estão nos cursos de humanidades e ciências sociais das nossas universidades, mas também se espalham pelas redações e chegam à televisão. Ocupam ainda posições de estado. Sua sacerdotisa midiática é a atriz Regina "Casebre". A cada vez que ela proclama que "a periferia é o centro" – ou o contrário, sei lá –, somos remetidos imediatamente aos versos do inglês Auden (1907-1973): "And the crack in the tea-cup opens / A lane to the land of the dead". A fenda na xícara de chá abre uma vereda para a terra dos mortos.
Sei que pôr Auden e Regina Casé num mesmo parágrafo pode parecer certo exagero. Comentando esses mesmos versos num texto da década de 70, o jornalista Paulo Francis (1930-1997) observou que a xícara de chá representava a velha ordem do Império Britânico e de suas classes dominantes. Trincada a xícara – um mundo, então, que desaparecia –, abriu-se caminho para as tragédias das duas grandes guerras. Nossa "xícara" é outra. Não chegamos a ter uma "aristocracia", mas já tivemos algumas ambições. O certo é que a Antropologia da Maldade decidiu fazer da barbárie uma civilização.
Um antropólogo da maldade não acredita ser possível ensinar matemática ou a poesia de Camões e Manuel Bandeira ao morro ou à periferia, mas está certo de que o morro e a periferia é que têm de ensinar funk e rap aos "imperialistas" e aos "playboys", já que se trataria da expressão de um novo sistema de valores. É como se aquela "civilização" já não fosse a nossa. Perguntaram certa feita ao antropólogo francês Lévi-Strauss (na verdade, nascido em Bruxelas) se ele havia se identificado com os índios que estudara. "De modo nenhum!", respondeu. Os nossos antropólogos da maldade não chegam exatamente a se identificar com a "civilização" do morro e da periferia, mas têm por ela um respeito basbaque e reverencial. Lutam para preservá-la da nefasta influência da cultura central, esta nossa – vocês sabem, corroída pelo materialismo, pelo capitalismo e por um moralismo de fachada.
Que coisa formidável! Estamos diante da defesa de uma nova forma de apartheid, um dos refúgios do "pensamento" da esquerda contemporânea. Se a tentativa de ver a "cultura da periferia" como um sistema com valores próprios é só coisa de gente de miolo mole, uma banalidade, essa visão "preservacionista" da civilização da miséria pode assumir uma face cruel quando o assunto é, por exemplo, segurança pública. A polícia, segundo os antropólogos da maldade, estaria proibida de subir o morro sem o prévio consentimento da "comunidade", ou isso caracterizaria uma "invasão". A disposição de enfrentar o crime, que seqüestra as áreas pobres das cidades, é encarada como um ato de guerra, uma hostilidade a um país estrangeiro. E os mortos nos confrontos – exceção feita aos policiais, os "soldados invasores" – serão sempre vítimas inocentes do país agressor.
Lévi-Strauss poderia ensinar a essa gente que os costumes e hábitos de superfície das sociedades – e, pois, também dos morros e das periferias – são manifestações de estruturas de poder. Parecem-me indecentes os protestos de artistas contra a ação da polícia no Rio em contraste com o seu silêncio então cúmplice diante do fato de que os soldados do tráfico matam livre e impunemente nas favelas. A estupidez reacionária desses progressistas chega ao ponto de considerar que isso é coisa "lá deles", da "outra cultura", "matéria da autodeterminação dos povos". Será que devemos reagir ao assassinato dos nossos pobres com o mesmo distanciamento antropológico com que reagimos ao infanticídio entre os ianomâmis?
É improvável que Lévi-Strauss retorne ao Brasil, repetindo a façanha de 1934, quando veio dar aula na Universidade de São Paulo. Agora com 99 anos, completados neste 28 de novembro, é compreensível que tenha outras prioridades. Se o fizesse, talvez aproveitasse para adensar ainda mais a sua obra-marco,Antropologia Estrutural, ou, então, entre a melancolia e o escárnio, perceberia que fez muito bem em esculhambar o país em Tristes Trópicos, obra de 1955 com apontamentos sobre comunidades indígenas brasileiras e notas sobre a nossa cultura urbana. Sobrou até para os universitários, como não? Nos anos 30, eles demonstravam certo desprezo pelos livros de referência, preferindo os resumos. Sua curiosidade intelectual se igualava a uma inquietação gastronômica, e o que parecia inteligência era só disputa por prestígio e vanglória..

Wednesday, December 28, 2016

'A Tolice da Inteligência Brasileira', de Jessé Souza

Todos os dias, indivíduos normalmente inteligentes e classes sociais inteiras são feitos de tolos para que a reprodução de privilégios injustos seja eternizada na sociedade. Para enxergar com clareza nosso real lugar no mundo, é necessário compreender como a elite intelectual submissa à elite do dinheiro construiu uma imagem distorcida do Brasil para disfarçar privilégios injustos.

Em "A Tolice da Inteligência Brasileira", o sociólogo Jessé Souza apresenta uma história das ideias dominantes do Brasil moderno e de sua institucionalização.

Com uma abordagem teórica e histórica, o livro traz um caminho para devolver ao brasileiro a possibilidade de entender as reais contradições da sociedade.
No prefácio do livro, Jessé Souza ressalta que a soma das rendas de capital no Brasil é monopolizada em grande parte pelo 1% mais rico da população. O trabalho dos 99% restantes é transferido em grande medida para os bolsos do 1% mais rico.
"Os endinheirados e poderosos têm que ser inteligentes o bastante para criar uma 'ciência para seus interesses'", diz.
O economicismo como "cegueira" da dimensão simbólica do capitalismo
Economicismo é a crença explícita ou implícita de que o comportamento humano em sociedade é explicado unicamente por estímulos econômicos. Mas não são economicistas apenas os economistas ou cientistas sociais que compartilham a mesma visão de mundo. Nosso senso comum compartilhado também é economicista, o que faz com que, quando se fala em "níveis de renda" como correspondendo a "classes sociais", ninguém ache isso absurdo ou ridículo. As pessoas levam a sério, mostrando que o economicismo, superficial, frágil e pobre, enquanto visão científica da sociedade, é uma espécie de "visão oficial do mundo", seja para o senso comum compartilhado por todos, seja para as "ciências da ordem", que se utilizam dos pressupostos do senso comum para construir suas categorias e hipóteses.
Existem, no entanto, importantes gradações de complexidade entre as diversas formas de economicismo. Há toda uma tradição alternativa e, no geral, uma tradição bem mais crítica e sofisticada que a tradição dominante culturalista/conservadora que contestamos na primeira parte deste livro. Essa tradição entre nós começa talvez com Caio Prado Júnior e sua ênfase em localizar, no seu clássico publicado em 1942, Formação do Brasil contemporâneo, a colonização brasileira no horizonte da expansão do capitalismo comercial europeu. Nos anos 1950 e 1960 a influência da obra de Raúl Prebisch e da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), muito especialmente na obra de Celso Furtado, teve extraordinária ascendência sobre a vida intelectual e política do Brasil.
Em uma época em que as relações de subordinação e dependência econômica no capitalismo internacional pareciam possíveis de ser superadas a partir de uma direção política adequada, o tema do estatuto da subordinação econômica, ou seja, "como" a subordinação econômica brasileira era produzida e reproduzida, tornou-se o aspecto central do debate. Na impossibilidade prática de discutir todos os autores importantes dessa tradição, decidi tomar Francisco de Oliveira e Florestan Fernandes, este último um caso cuja singularidade ainda teremos ocasião de discutir em detalhes, como os grandes autores de uma tradição influenciada pelo marxismo e que avança efetivamente na compreensão da sociedade brasileira e de suas contradições reais.
Esse é muito especialmente o caso de Florestan Fernandes, já que Fernandes, para mim, é o primeiro pensador brasileiro que avança na questão de refletir sobre a "reprodução simbólica" do capitalismo periférico. E como, também para mim, esta reconstrução é o aspecto principal de uma sociologia crítica do Brasil contemporâneo, dado que o "trabalho da dominação social" que esconde privilégios só pode ser percebido pela reconstrução de uma reprodução simbólica muito peculiar ao capitalismo, Florestan é meu "interlocutor privilegiado". Não por acaso, meu livro A construção social da subcidadania é um diálogo com o A revolução burguesa, e nosso trabalho coletivo, A ralé brasileira: quem é e como vive, é um diálogo com seu A integração do negro na sociedade de classes.
Mas por enquanto comecemos o debate com Francisco de Oliveira. Seu livro Crítica à razão dualista é um acerto de contas com a tradição cepalina anterior. Parece-me também o ponto alto da tradição economicista entre nós - no caso de viés marxista -, levando ao máximo suas possibilidades explicativas. Por essa razão, serve também, em contrapartida, talvez como nenhuma outra produção teórica nacional sobre o tema, para mostrar os limites do economicismo marxista. Esse importante clássico de 1972 foi realizado como uma resposta à então recente expansão do capitalismo brasileiro acompanhada de um modelo de consumo restrito à classe média. Neste sentido, o texto é um debate sobre o processo de industrialização brasileira pós-1930.
Oliveira parte da crítica do conceito de subdesenvolvimento como um conceito singular que deveria prestar contas da ideia de um capitalismo em "trânsito" enquanto constituído por um setor moderno e um setor atrasado. A crítica de Oliveira é certeira em dois pontos fundamentais: a) na realidade concreta, todo sistema social capitalista, e não apenas o "subdesenvolvido", articula um setor moderno e um setor "atrasado"; b) ao contrário de oposição, o que existe entre eles é uma simbiose e uma organicidade, na qual o moderno se alimenta e explora o atrasado. O segundo ponto é nodal, e responsável por possibilitar ao autor uma leitura original e crítica de todo o desenvolvimento socioeconômico brasileiro durante a segunda metade do século XX. Boa parte do texto, inclusive, irá se dedicar precisamente a mostrar as formas concretas pelas quais a exploração do setor atra-sado explica e mantém, em grande medida, o dinamismo do setor econômico moderno brasileiro.
Mas Oliveira também avança em relação à questão que mais nos interessa aqui. É que o debate sobre o "subdesenvolvimento" passou a ser percebido como uma questão de relações internacionais, uma oposição entre nações e de suas respectivas relações de troca. Nessa forma de se perceber as coisas, são as lutas internas de classe à cada sociedade que são secundarizadas, criando a interessante questão posta por Oliveira: são as relações internas ou externas as mais importantes? O modelo anterior cepalino podia apenas perceber contradições entre nações como se de fato pudessem existir "interesses nacionais globais". Esse pressuposto, inclusive, contaminou grande parte do debate da época, criando construções que hoje nos parecem ingênuas, como a aposta em uma suposta "burguesia nacional brasileira" que pudesse ser o suporte dos interesses maiores de toda a nação.
Oliveira nota com muita perspicácia que a dominância dessas ideias impossibilitou a efetiva construção de uma "teoria do capitalismo no Brasil". Meu ponto de discordância com Oliveira é o de que é impossível se construir uma teoria crítica do capitalismo brasileiro dentro do contexto de referência teórico do economicismo, seja ele liberal, seja marxista como o de Oliveira. E essa limitação é perceptível em seu próprio texto, como veremos adiante. Por enquanto vamos continuar examinando a obra no contexto de seu próprio quadro de referências.
A principal característica do novo modelo de economia e de sociedade que se instaura no Brasil a partir de 1930 envolve a realização do excedente econômico não mais prioritariamente a partir do mercado externo - como era o caso até 1930 -, mas, crescentemente, pelo próprio mercado interno. Essa transformação socioeconômica de grandes proporções muda toda a lógica da dinâmica social e enseja uma nova hierarquia política e econômica.
A tese de Oliveira implica, no contexto da interpretação deste período e da discussão de seu sentido histórico, um embate contra praticamente todas as teses mais consagradas acerca deste período conhecido como "populista". A interpretação dominante enfatizava ganhos crescentes também para os trabalhadores urbanos, com a Revolução de 1964 tendo sido levada a cabo pelo esgotamento deste modelo inclusivo. Para Oliveira, ao contrário, a regulamentação das leis do trabalho criando um denominador comum para todas as categorias de trabalhadores - evitando setores de trabalhadores privilegiados com capacidade de barganha em relação ao capital - garantiu o processo de acumulação ao invés de prejudicá-lo durante todo o período "populista". De resto, acontece massiva transferência de outros setores para a empresa industrial. Muito especialmente a agricultura para o mercado interno deveria suprir as necessidades das massas urbanas. Ainda que não se exproprie a propriedade rural, expropria-se, no entanto, seu excedente e transfere-se para o novo setor dinâmico da economia. Os baixos preços da reprodução da mão de obra urbana são conseguidos precisamente por meio do baixo custo dos alimentos e por certa cultura de subsistência urbana. Os baixos salários dos trabalhadores aliados à produtividade industrial deram enorme reforço à acumulação industrial entre os anos de 1930 e 1970, período de maior crescimento da economia brasileira. É esta combinação de baixos salários e alta produtividade pela importação de tecnologia de ponta materializada em meios de produção que está na base do tipo de capitalismo que se instaura no Brasil com seu padrão altamente concentrador

Thursday, August 18, 2016

Past and Present and Future and....Past and Present and

strongly believe that in the present is a consequence of what of the successions of pasts along the history of the universe. Therefore, I cannot agree with the assumption that what happens is disconnect to what happened in the past, or the previous of now. As stated by the German philosopher Hegel, the human history is a byproduct of the clash of progressive forces and conservative forces, according to his thinking the present is synthesis derived from this conflicted based process. Consequently, in the same way we should try to predict our future using forecasts models based on the current events, It is necessary to consider the past the framework for the developments of the present. The famous British writer, George Orwell in his novel 1984 stated that those who have the power now, can control the assemblage of the narrative of the historical process, therefore he explicitly said that "who controls the present, controls the future, who controls the present, controls the past". Therefore, if one applies this concept he can realize that the whole history narrative is artificially constructed for the purpose of alienating and exploitation of the individual - Orwell was concerned that humans while disconnected from the pasts were easily manipulated by totalitarian states. In as much as one can observe the impacts of the past in the present for historical events, one can realize the potential to attain to his own unleashes a virtuous self-discovery lead by a greater self-consciousness . Since the Austrian and Jewish born physician doctor Sigmund Freud inaugurated his therapy technique by talking to his patients in order to understand their pasts. Freud enticed the psychologist's and philosophers of the mind communities to help people by seeking to understand the past and the life history of their patients. Nowadays, psychoanalysis is extremely diffused technique that has been important triumph for treating the anxious modern individual. Ignoring the past can be a matter of self-denial, the Maoist revolution in the 1960s in China aimed to destroy history and re-set it based on the principles of the elder Mao Tse Tung. The cultural and the economic model imposed by Mao had terrible consequences for the Chinese economy generating one of the worst famines in human's history. Despite these failed reforms eroded Mao's power, which was important to drive a new generation of politicians to the control of the communist party. These new politicians were the contrary forces of Mao's, thanks to them China is now the second richest in the world economy provoked by an impressive economic performance for a country that had humanitarian problems less than half century ago. In sum, it is clear that all the events in the universe's and in the human's history are connected in a chronological order, the facts of the past are necessarily present in the current time. The present is a byproduct of the past and the things that happen now are directly related and caused by the the successive facts that make the past. Therefore, I refute the idea that learning about the past is worthless for us living in the present time.

Thursday, July 21, 2016

A montanha russa do real (Artigo)

A intensidade da valorização da moeda brasileira em 2016 trouxe novamente a taxa de câmbio para o centro do debate econômico. Líder de valorização no primeiro semestre desse ano, a moeda brasileira proporcionou ganhos para apostadores e chamou a atenção dos analistas econômicos. Apesar da surpresa, o ocorrido não é um fato isolado: a moeda brasileira está sempre entre as que mais se valorizam e desvalorizam em relação ao dólar ao longo dos ciclos cambiais. A tabela apresenta a variação em relação ao dólar de um grupo de moedas, das mais voláteis do sistema, ao longo de cinco períodos. Em todos os períodos o real está entre as três moedas que mais se valorizaram ou se desvalorizaram em relação à moeda americana. No primeiro período, que vai da estabilização da taxa de juros americana até as primeiras manifestações cambiais da crise de 2008, o real é campeão com 30% de valorização em relação ao dólar. No segundo, que compreende os meses mais agudos da crise de 2008/09, a moeda brasileira é a segunda que mais se desvaloriza, perdendo apenas para o rublo. Diante da crise, a valorização do período anterior se desfez rapidamente com uma desvalorização de 46%. Entre março de 2009 e julho de 2011, período caracterizado pelo afrouxamento monetário nos países centrais, a moeda brasileira volta a se valorizar 33% em relação ao dólar, melhor marca depois do dólar australiano e do seu vizinho neozelandês. O desafio da política cambial é complexo e exige olhar transformador sobre a institucionalidade do mercado de câmbio Já no quarto período, entre julho de 2011 e janeiro de 2016, quando os ventos da liquidez internacional sopram em direção ao porto seguro monetário, a moeda brasileira se desvaloriza impressionantes 159% (de R$ 1,56 para R$ 4,04 real/dólar) perdendo apenas para o rublo que se desvalorizou 172% no mesmo período. Por fim, nesse último semestre, a moeda brasileira foi a que mais se valorizou: 15% na comparação entre a média mensal de janeiro e a média mensal de junho. Ou seja, no campo das valorizações e desvalorizações cambiais, a moeda brasileira é campeã. Evidentemente não há nada do que se orgulhar nesse título, trata-se de uma disfunção econômica das mais graves, que merece estudo, compreensão e remédio. Uma taxa de câmbio cujos movimentos se assemelham aos de uma montanha russa em nada contribui para ajustes externos e internos da economia. Ao contrário, produz um cenário de incerteza que penaliza o planejamento econômico e o investimento produtivo. Nesse sentido, é fundamental compreender por que a moeda brasileira se valoriza mais do que outras nos períodos de alta liquidez no front internacional e se desvaloriza mais do que as outras nos períodos de crise e retração da liquidez internacional. Os fundamentos econômicos não parecem explicar o desempenho da moeda brasileira. A taxa de câmbio muitas vezes vai na contramão do equilíbrio das contas externas. Tampouco os preços de commodities, fortemente correlacionados com a taxa de câmbio, justificam esse grau de volatilidade. Não é saudável para a economia brasileira uma flutuação cambial que reproduza a volatilidade dos índices de commodities, tampouco é compreensível que essa relação seja mais intensa do que em economias mais especializadas na produção de produtos primários como Rússia, Austrália e Nova Zelândia. Nesse sentido, é preciso buscar outra explicação. No livro recém-lançado, "Taxa de câmbio e política cambial no Brasil: teoria, institucionalidade, arbitragem e especulação", de minha autoria, procura-se entender a formação da taxa de câmbio no Brasil a partir do funcionamento do mercado de câmbio brasileiro. Apontam-se duas especificidades importantes para o entendimento da dinâmica cambial. A primeira é o alto patamar da taxa de juros que torna a moeda brasileira um alvo preferencial das operações de carry trade, operação na qual se assume um passivo ou uma posição vendida na moeda de baixos juros e, simultaneamente, um ativo ou uma posição comprada na moeda de altos juros. Esses investimentos especulativos provocam uma grande procura pela moeda brasileira nos períodos de alta do ciclo de liquidez internacional, mas também geram o efeito inverso na reversão do ciclo, quando as operações de carry trade são desmontadas. Nesse contexto, enquanto o Brasil for campeão de juros altos será também atraente para os fluxos especulativos e, potencialmente, campeão de volatilidade cambial. Já a segunda particularidade refere-se à institucionalidade do mercado de câmbio brasileiro, cuja principal característica é um mercado futuro três vezes mais líquido do que o mercado à vista. O baixo grau de regulação e a facilidade de acesso dos investidores estrangeiros aos derivativos torna o mercado de câmbio brasileiro particularmente permeável à especulação financeira. Assim, de forma recorrente, a especulação no mercado futuro condiciona a volatilidade e as tendências cambiais, acentuando os movimentos da taxa de câmbio. Essa dinâmica especulativa constitui um desafio para a elaboração e implementação de políticas cambiais. Os instrumentos usuais de atuação no mercado de câmbio, como as intervenções e os swaps, reduzem a intensidade das subidas e descidas cambiais que seriam maiores com um câmbio flutuante puro. Mas, apesar de importantes, esses instrumentos não são suficientes para mitigar a volatilidade e as tendências de preços geradas pelo setor financeiro. O desafio da política cambial é, portanto, mais complexo e exige um olhar transformador sobre a atual institucionalidade do mercado de câmbio. Pedro Rossi é professor da Unicamp e autor do livro "Taxa de câmbio e política cambial no Brasil: teoria, institucionalidade, arbitragem e especulação"

Saturday, June 11, 2016

All That Is Solid Melts Into Air: The Experience of ModernityAll That Is Solid Melts Into Air: The Experience of Modernity by Marshall Berman
My rating: 5 of 5 stars


Marshall Berman Bronx raised by a Jewish family during the great wars. In this book is an great contribution for critical thinking and cultural studies. From the perspective of Marx's in his Communist Manifesto that immortalized the phrase "All that is solid melts into air", Bermann deciphers what Marx and other writers such as Goethe, Baudelaire, Gogol, Pushikin and,of course Dostoyeviski. In the first part he interprets the Goethe's Faust. His basic idea is that modernity brought by the rational and profitable use of technology would destroy the every naive society. Is very impressive when he compares the destructive power of Faust and Menefisto's undertaking, this comparison is latent in the whole book. Berman translates the agonies of guys like Nietzsche and Marx that were wittenessing of the post-enlightment development brought by the rationale of modernity that in the name of material progress made the faustian bargain of losing its soul dehumanizing humans in the name of progress and humanity - same what Dostoyesviski tried to denounce in the his Underground's Memories, or Demons. In the last part of the book, while describing the titan of America's post-war urbanism he compares the destructiveness of post-new deal agencies and Robert Moses is paving all American cities and bearing the suburbs. After providing his insightful interpretation on the impacts of Goethe's Faust, Bermann analysis the works of Charles de Baudelaire in parallel to the urbanistic development implemented in Napoleon III and Haussmann's Paris. The large avenues, the macadam (Mcadam) paved roads, large roads of Hausmann was a perfect place in galleries and in the bourgeois' life. The charriot's traffic, the indifference of chaotic urban life and the appearance of the blase. The description of the modernist impact of Baudelaire's work lays the ground for the book's best part the Petersburg's Prospects. This part caught my attention because I had the opportunity of experiencing places where some scenes discussed by Bermann take place. He describes how Gogol before Baudelaire already feels the weirdness of living in a modern city founded by Feudalist despot. Like Brazil's capital, Petersburg is a invented city for Russians to better link with their civilized roots away from their barbaric ascents in Moscow. Petersburg and the modernization ambitions of Czar Peter the Great planted the seeds for the dramatic leap in Russian culture and consciousness. Many privileged Russians had the chance to get scholarships abroad and after returning to Russia, where places in any bureucratic post in Petersburg. Writers like Gogol and Dostoyesviski breath the European enlightment while confront with their feudal and pre-modern roots. The moisture of a pre-capitalist world and cultural enlightenment thanks to the modernization spirit that the harbors of Petersburg receive from e XIX's Europe. The willingness to become modern reaches its crosswords when the consequences of modernity would threat the Czar's political establishment. The Peterburg Madson's Square was Nevshky Prospekt, where the burgeouis life and values could disentangle from the Russia's contradictions. Underground's Man is the man that navigates these both words, in the ideas of modernity and the reality of backward society that is the Court of Czar's civil servants. The meaninglessness of the a bureaucratic order set to translate modernity filtering its subversive values in order to keep intact the Czar's grip on the country. The book's last part is his direct analysis of Robert Moses and his faustic role in the US post-war modernisation. The good intentions for the people from a cold hearted businessman that new how to access public subsidies for the construction of post-war,metallic and exo-esquelleton running in time and space America. He praises Jane Jacobs works that valued the routines of people in a lower middle-class white neighborhood. If Jacobs sees the microcosms of the humans the megalomaniac Moses had his good intentions for the people, but didn't like person's individually all he was concerned was spend federal money with in urban undertaking that aggressively destroyed traditional neighborhoods such as New York's Bronx. In the end he analyses the prospects for modernity that might last as much as the middle ages before something critical enough happens and changes history's course.


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